Reflexões sobre o sofrimento humano

Reflexões sobre o sofrimento humano

“A vida divide-se em três períodos: o que foi, o que é e o que há de ser. Destes, o que vivemos é breve; o que havemos de viver, duvidoso; o que já vivemos, certo.” Sêneca

Há pessoas que buscam incessantemente respostas que venham a assegurar o seu equilíbrio e bem-estar. Planejam detalhadamente o seu futuro e querem uma garantia assegurada de que nada de mal lhe acontecerá ao longo de suas vidas.
Na verdade, a maioria das pessoas não quer correr riscos, em vez disso busca garantias, seguranças. Já parou para pensar quantas vezes o seu dia correu como o planejado? Com certeza, bem poucas vezes. Que garantias temos do dia de amanhã? Que garantias temos de que tudo sairá de acordo com o que foi planejado? Quantos planos fazemos que não se concretizam? Tudo o que está por vir é incerto.
Senão, vejamos: as pessoas que conhecem e aceitam a realidade não têm garantias de que suas decisões serão acertadas. E essa assertiva não se aplica apenas àquelas pessoas que se sentem derrotadas, mas também às amadurecidas e saudáveis.
Ora, isso vem nos provar que o conhecimento por si só não configura uma garantia de sucesso. Quando optamos por viver, por fazer escolhas, por termos o poder de decidir, temos que intuir que estamos diante de um risco permanente. O certo é que todos nós erramos, todos nós somos limitados, todos nós nos tornamos propensos ao fracasso, ainda que tenhamos adquirido o saber.
Diante disso, não há como fugir de uma sentença ditada há tempos pelo pensamento popular: Errar é humano.

Momentos de crise
Não há como passar ileso pela vida. Todos nós atravessamos fases de sofrimento no decorrer de nossas vidas. Parte de nossas experiências emocionais envolve tristeza, raiva, decepção, frustração.
O que se sabe é que as perdas são inerentes à vida. No curso da vida todos nos defrontamos com uma dura realidade de perdas: perda de pessoas queridas, de amores, de nossos sonhos, da juventude.
Ocorre é que há aqueles que não suportam passar sequer por um momento de crise, querem logo se ver livres do sofrimento. Outros querem se proteger da amargura, fingindo que ela não existe. Há ainda aqueles que se refugiam em um mundo de fantasias e os que se entregam ao consumismo exagerado. Há também os que se entregam ao trabalho excessivo, não tendo tempo sequer para a construção de si mesmos, enquanto buscam no externo preencher o vazio interior.
Em meu consultório, ao longo dos anos, atendi muitas pessoas passando por crises pessoais, que vieram até mim em busca de ajuda, trazendo consigo um desejo de mudança. No entanto, pude constatar que muitos esperavam uma solução rápida para os problemas que estavam vivendo. Dominados pela ansiedade, esperavam respostas já na primeira consulta, procurando atalhos que levassem a uma miraculosa mudança.
Tais pessoas não compreendem que mudanças profundas requerem tempo e que, até por isso, a tristeza feita desses momentos difíceis acaba fazendo parte de nossas vidas. E é preciso compreender e aceitar que para tudo há um tempo para a resolução. Nesse sentido, o profeta Salomão, em Eclesiastes 3, pontificou:

“Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;
Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;
Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;
Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.”

Na verdade, aceitar nossos problemas e dificuldades reais é algo que fere nossas fantasias e desejos de perfeição e harmonia constantes. Olhar para os problemas e para as dificuldades confronta-nos com a incompletude. Mas, é preciso que estejamos atentos: na medida em que nos conhecemos, o que parece negativo pode mostrar-se altamente positivo, pois aceitar essa dor é admitir que nós temos limites e falhas. E somente de posse desse despojamento de atitudes é que alcançamos a etapa que nos leva à sonhada mudança.

Parar para refletir
Diante das dificuldades ninguém deve cruzar os braços. Aceitar um problema é ter o bom senso de parar para refletir, para se permitir sentir aquela emoção, mesmo que esta tenha um sabor desagradável. A partir do ato de parar para pensar é que poderemos seguir a adiante e construir algo novo, sem precipitação ou ansiedade. Somente assim poderemos resolver melhor nossos problemas e buscar mudanças verdadeiras, sem que nos valhamos de perigosos atalhos. Viver é um processo e, antes de tudo, é saber transformar-se.
É verdade que nos aproximamos mais de Deus, somos mais humanos, durante as fases difíceis de nossas vidas e que as pessoas que apresentam maior espiritualidade conseguem passar melhor pelos problemas da vida.
Entretanto, a autossuficiência não é um lugar-comum: a pessoa que sofre, em geral, precisa de alguém para conversar sobre suas angústias, para expressar suas revoltas, pois tudo aquilo que não é exteriorizado em palavras permanece solto, o que pode resultar em malefícios.
Um psicólogo clínico ou um psicanalista são profissionais indicados para ajudar nessa travessia, auxiliando na passagem dos processos dolorosos para uma harmonia desejada. O processo terapêutico é salutar, pois o que aflige a pessoa pode ser colocado em palavras e, através do analista, a angústia recebe nome, atingindo, com isso, o plano do simbolizado, passível de representação, nomeando o que era até então inominável.
Dar um nome à dor, achar um sentido para o sofrimento é o que impede que a pessoa sucumba com tudo o que lhe aconteceu. Encontrar um sentido é poder ligar o sofrimento a algo, é poder representar, simbolizar e, assim, dar um rosto à aflição, derrotando-a.
Nesse contexto, a psicanálise trouxe algo de revolucionário e transformador: a crença de que toda conduta humana tem um sentido emocional, ou seja, os comportamentos relacionam-se com o mundo interno. E essa viagem de conhecimento do interior leva, inevitavelmente, ao contato com sentimentos dolorosos e difíceis de serem suportados.
Pelo exposto, concluímos que o sucesso ou o fracasso diante da crise dependem do ângulo como encaramos os problemas: dessa análise, sairemos vítimas derrotadas ou heróis em crescimento. Um fato é real: aprender a lidar com o sofrimento faz parte do nosso amadurecimento. As dificuldades inerentes à vida, antes de nos tornarem seres derrotados, devem servir para o acúmulo de novas experiências.

4 Comments

  1. Eliane de Souza Zago

    Que boa notícia: a dor e a tristeza, inerentes ao sofrimento, não definem quem somos, não redefine a identidade. O sofrimento não define quem somos, mas a forma como passamos pelo sofrimento diante dos algozes, define como estaremos quando o sofrimento passar.

    Triste quando o sofrimento se torna a nossa identidade, vitimado, assim tudo e todos passam a ser julgados ou analisados a partir do sofrimento que nos definiu.

    Jesus Cristo em sua Paixão, demonstra como podemos passar pela dor, tristeza, pelo sofrimento sem que essa dor, esse sofrimento roube a nossa identidade, nem tire de nós o privilégio e a responsabilidade de ser o sujeito da nossa história.
    Adorei o artigo. Parabéns!

Comente

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>