Angústia de final de ano

Angústia de final de ano

Por meados de novembro, lojas e shoppings começam a mudar a decoração anunciando que em breve as festas de final de ano chegarão.

Tenho observado que para a maioria das pessoas dezembro é um mês de muita correria. As pessoas ficam mais agitadas, ansiosas, correndo para arrumar a casa, concluir trabalhos, comprar presentes.

A época natalina que, para muitos, é a mais feliz do ano, para outros é exatamente o contrário. Ficar triste nessa época não é tão incomum assim, aliás, é muito constante ouvirmos queixas de tristeza e de angústia.

Mas, do que essas pessoas se queixam? Qual seria o motivo da tristeza?

São muitos motivos, cada um tem o seu. Para cada indivíduo, há um motivo específico, mesmo que desconhecido. Senão, vejamos:

Em tempos de redes sociais, tem-se a impressão de que todos estão felizes, muito felizes! Nesse novo e revolucionário espaço de comunicação, a grande maioria só posta as alegrias, afinal, estampar tristezas leva-nos a ser tachados de pessoas chatas. Porém, há aqueles que começam a imaginar que todos são felizes, exceto eles mesmos. Assim, a sensação de tristeza e desânimo pode se agravar pelo fato de se compararem com outras pessoas e imaginarem que todos, menos eles, estão bem.

Kelly, 34, me diz: “Eu não gosto de final de ano, gostaria de dormir e acordar somente no ano que vem.” Ela se esforça para criar um clima bom em sua casa, onde vive com suas duas crianças de 5 e 6 anos, respectivamente. Arruma a árvore e compra presentes para os filhos todos os anos. Mas uma angústia toma conta do seu ser. Ela tem a impressão de que, exceto ela, todos estão muito felizes com suas famílias em harmonia. Kelly não consegue encontrar essa tal felicidade.

Há pessoas que nessa época do ano se retraem, ficam pensativas, introspectivas.Sentimentos de solidão e desejo de isolamento podem aparecem em algumas delas. Catharina, 46, é de uma família abastada. O Natal dela tem mesa farta e há troca de presentes. Ela não compreende por que sente um vazio tão grande. Tem vontade de se trancar e ficar sozinha em seu quarto.

A angústia pode ser advinda de sentimento de tristeza pela perda de entes queridos. José, 50, relembra do filho que morreu num acidente automobilístico, no dia de Natal, após sair embriagado da casa da família para dar um “rolê” com os amigos. Uma parte da alegria de José foi enterrada com seu filho.  Ele nunca mais voltou a ser o mesmo.

Cultural e socialmente, o Natal pressupõe reuniões familiares. No entanto, encontrar-se com a família pode ser muito difícil para alguns. Como muitos familiares não têm afinidades, muitos desses encontros se dão por obrigação e isto desencadeia raiva, sofrimento e torna-se ambiente propício para reavivar mágoas. Aí os conflitos aparecem. Todos sabemos que muitas dessas reuniões familiares são cercadas de brigas, desentendimentos, falsidade.

Todos os anos Maria vai embora da casa dos pais com vontade de nunca mais voltar.  Joana, 28, presenciou a briga da mãe e da tia, numa noite chuvosa de Natal. A tia sofreu um infarto e veio a falecer horas depois. O Natal nunca mais foi o mesmo na família de Joana. Um clima pesado invade a ceia de Natal todos os anos. Já Rafael, 25, lembra-se do pai e do tio embriagados, discutindo a herança da família, competindo por sucesso e bens adquiridos.

Sabemos que há muito tempo o Natal passou a ser também uma festa comercial. Infelizmente, de uns anos para cá começou a existir uma espécie de “obrigação” de se presentear todo mundo: familiares, amigos, professores, porteiros, empregados, colegas, chefes, todas as crianças da família, todos os “amigos secretos”… Não que essas pessoas não mereçam ser presenteadas, mas é fato que nem sempre temos preparo financeiro para tantos presentes, mesmo que sejam pequenas lembranças. Para muitos, a quantidade de pessoas a serem brindadas com mimos pode ser algo muito dispendioso e até inviável para ao orçamento familiar. E essas pessoas não raramente entram em um dilema, pois culturalmente não presentear pode despertar um aspecto de grosseria. Diante desse temor, muitos entram em dívidas por excesso de compras. Isto tem sido também um motivo de tristeza para alguns. Ellen, 41, ficou arrastando dívidas do cartão de crédito pelas compras excessivas, especialmente no Natal, por muito tempo. Ela sempre quer agradar todo mundo, mas paga um alto preço por isso.

Outro aspecto a ser observado é que esse clima de final de ano nos torna mais suscetíveis à reflexão. O final de ano tem o sentido simbólico de encerramento de um ciclo. Às vezes, pela correria do dia a dia, não tiramos tempo para pensar ou planejar. Esta é a oportunidade para muitos de tirarem um tempo de reflexão. Ocorre que muitas pessoas fazem muitos planos, porém não conseguem realizar a maior parte deles. Até por isso, boa parte delas sente-se frustrada e, através dessas reflexões, percebe que perdeu tempo e oportunidades. É quando aparecem arrependimentos, cobranças e sentimento de perda.

Também, a realidade pode surpreender com situações por vezes muito diferentes daquilo que foi planejado. O inesperado pode acontecer: divórcio, morte, reprovação, demissão… E aquele projeto que foi cuidadosamente planejado pode não vir à tona.

Clarisse, 30, me conta que, no ano passado, planejou emagrecer 30 kg, porém não conseguiu e, quanto mais pensa nisso, mais vontade de comer sente. Paulo, 25, estava pleiteando uma vaga concorrida, contudo foi reprovado. Marina, 29, estava com o casamento marcado, um dia antes o noivo simplesmente desistiu do casamento. Os convidados já estavam na cidade, os presentes já haviam sido entregues, tudo minuciosamente preparado.

Quantos planos não se concretizaram? Quantas coisas foram pagas em nome de um futuro que simplesmente não existiu? Não aconteceu porque era apenas um plano. Como desistir do que custou tão caro?

 

Vimos, portanto, que a tristeza que as pessoas costumam experimentar nesta época do ano pode vir de:  lembranças dolorosas e feridas não cicatrizadas, dores de saudade de pessoas que morreram, obrigação de encontrar parentes de difícil convívio, percepção da realidade vivida. Esses, dentre outros, são motivos frequentes para as pessoas ficarem entristecidas.

Além disso, há uma pressão social constante para se estar feliz, para celebrar, para refletir sobre as conquistas do ano e isso também pode incomodar a muitos.

Vale salientar que, apesar da intensa divulgação, as pessoas ainda confundem depressão com tristeza. Na verdade, tristeza não é depressão. A tristeza é um sentimento humano, todos nos sentimos tristes em vários momentos: ao nos conscientizarmos de uma situação ou quando percebemos que perdemos tempo, que fracassamos. Esse sentimento faz parte de nossa vida, mas, felizmente, é transitório.

Por exemplo, se uma pessoa teve uma perda significativa (um ente querido, divórcio, emprego, etc.), é normal e necessário sentir tristeza.  Perdas precisam de tempo para ser superadas.

Na depressão há o sentimento de tristeza, mas há outros sintomas. Se a pessoa está entristecida por muito tempo, deixou de fazer as atividades antes prazerosas, está com pensamentos de morte, dentre outros sinais, é hora de se pensar em buscar ajuda. A depressão é uma doença que requer tratamento especializado. Para entender melhor esse problema, leiam o artigo que escrevi sobre depressão em meu blog. (link: http://www.abneiabrocanelli.com.br/?p=187). Também indico a leitura do artigo: Quando as dificuldades emocionais se tornam grandes: o que fazer? (link: http://www.abneiabrocanelli.com.br/?p=203 )

 

Para sua reflexão:

Por que festejar? Quais são os motivos que você tem para comemorar? Pelo que você é grato?

Gostaria de lembrar que nos reunimos porque somos humanos e humanos precisam de outros pares o tempo todo. Portanto, procure cultivar bons relacionamentos, cercando-se de pessoas com as quais você se sente bem. Tenha em mente que seres humanos não são perfeitos, para conviver faz-se necessário relevar algumas coisas. Procure não fazer as coisas apenas por obrigação. Viva a sua vida, não viva uma vida ditada por outras pessoas. Talvez se durante o ano olhássemos mais para nós mesmos, vivêssemos mais de acordo com nossos valores e princípios, essa “angústia de final de ano” seria menor.

Comemore a chegada de um novo ano, aprenda com o que não deu certo, agradeça por tudo o que viveu até aqui, celebre a oportunidade de estar vivo, regozije-se por poder viver mais. Procure viver uma vida bem vivida! Há infinitas possibilidades para isso.

 

Desejo a você um Feliz Natal e um Feliz 2016!

 

Obs: Os nomes foram trocados em respeito à privacidade das pessoas que deram seus relatos.

Comente

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>