Vamos falar sobre o filme “Coringa”?

Vamos falar sobre o filme “Coringa”?

Neste final de semana, fui assistir ao tão comentado filme Coringa e gostaria de compartilhar com vocês as minhas impressões. Adianto, há spoilers em meus comentários.
Não se trata de um filme tradicional de super-heróis, aliás não aparecem heróis. O filme é um drama que tem a intenção de abordar a questão dos transtornos mentais.
O personagem é um tanto enigmático. As características do personagem Coringa são muito diferentes das anteriores, vale dizer, não há relação com as outras versões do personagem vistas anteriormente no cinema.
O diretor do filme disse que não se baseou em nenhum diagnóstico específico, e que a construção do personagem foi feita com sintomas de diferentes patologias.
Muitas coisas poderiam ser ditas do ponto de vista psicológico sob várias diferentes óticas, mas procurarei me atentar apenas a alguns pontos.
O personagem Arthur é apresentado para nós com uma série de sintomas. Ao que tudo indica, Arthur é portador de problema neurológico que faz com que ele ria em momentos inapropriados. Apresenta em vários momentos comportamentos impulsivos, transgressores, por vezes de extrema violência. Ele vê coisas que não existem, por exemplo, no relacionamento com a vizinha (possivelmente ocorre alucinação auditiva e visual). São notados, ainda, sintomas de depressão, como quando diz: “Eu só tenho pensamentos negativos.” Ele afirma tomar sete remédios psiquiátricos ao dia, mas acaba ficando sem o tratamento porque o Estado corta os subsídios ao tratamento.
Através do roteiro somos conduzidos a compreender que Arthur teve uma infância difícil, sofreu abusos físicos e foi criado por uma mãe portadora de doença mental.
Na idade adulta, ele passa por várias batalhas psicológicas, tem dificuldades para se relacionar, construir seu lugar no mundo e está tentando dar conta de fracassos contínuos. É um homem ignorado pela sociedade, que apanhava sem motivo, era desprezado, rejeitado, violentado.
Fica evidente o drama interior: ele quer ser visto, quer ser notado, mas não é o que acontece. Não era visto pela mãe, que também tinha problemas psiquiátricos graves; não foi visto pela vizinha; não era valorizado pelos colegas, nem pelo chefe; não era visto pela assistente social. Numa das conversas com a assistente social, ele chega a pontuar essa questão dizendo: “Você não escuta o que eu digo. Sempre pergunta como eu me sinto, se tenho pensamentos ruins. Eu sempre tenho pensamentos ruins. Sempre me senti como se não existisse. Você não me ouve”.
Tantos problemas internos resultam em inúmeras dificuldades para suportar as pressões advindas do mundo externo. Mesmo tendo tão pouco, vai perdendo o que tem: perde o emprego, perde o acompanhamento com a assistente social, perde sonhos, perde a confiança que tinha na mãe. E aí que o caos se estabelece, e Arthur começa a tentar tornar-se alguém notável através da violência.
Enfim, a meu ver, um filme interessante, bem produzido, que vale a pena ser assistido!
Uma questão que tem sido levantada é se as pessoas podem cometer atos violentos após assistirem a filmes violentos como este. A discussão sobre a influência de filmes ou jogos violentos na sociedade é bastante antiga. Os estudos mostram que não há uma correlação direta entre a violência no cinema ou nos videogames, com o aumento da violência na sociedade. O tema é polêmico! Particularmente, não acho recomendável ser visto por adolescentes, pessoas com graves transtornos mentais, ou passando por fases de grandes dificuldades emocionais, pois é um filme pesado, com várias imagens de violência. Arthur é agredido e agride em vários trechos do filme. Muitas cenas são desconfortáveis e confesso que me deixaram impactada! Precisei de um dia todo para digerir o que senti durante o filme para conseguir escrever este texto.
Importante destacar a espetacular atuação do ator Joaquin Phoenix! O ator conseguiu não apenas retratar a insanidade do personagem de forma psicológica, mas também física, com sua magreza excessiva e movimentos corporais que, de forma artística, retratam seu drama. Estamos aqui todos torcendo para que ele ganhe o Oscar 2020.

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